Feedback na liderança: o custo de esperar que o colaborador “saiba”
Existe uma diferença importante entre aquilo que parece óbvio para quem lidera e aquilo que foi, de fato, explicitado para quem executa.
Nem todo profissional chega à organização com a mesma capacidade de leitura de contexto, repertório político, percepção das relações informais ou entendimento sobre quais comportamentos são valorizados naquele ambiente.
E isso não significa ausência de maturidade.Significa que comportamento é contextual.
O que é considerado adequado em uma empresa pode ser interpretado de outra forma em outra cultura, liderança ou estrutura. Senioridade, momento organizacional, relações de poder, normas implícitas e expectativas do gestor também influenciam essa leitura.
Por isso, esperar que alguém ajuste um comportamento que nunca foi claramente discutido é, no mínimo, uma aposta ruim para a empresa.
E é justamente aqui que entra uma responsabilidade que muitas lideranças evitam reconhecer: se um comportamento inadequado é percebido, continua acontecendo e ninguém oferece feedback claro, o problema já não está apenas no colaborador. Existe também uma falha de gestão.
Liderar não é apenas identificar bons e maus comportamentos. É criar clareza suficiente para que as pessoas entendam o que se espera delas e tenham oportunidade real de ajustar a rota.
O problema começa quando o comportamento incomoda, a liderança percebe, comenta com outras pessoas em formato de fofoca (o que, para mim, é extremamente disfuncional) e começa a construir silenciosamente uma narrativa negativa sobre aquele profissional.
A partir daí, inicia-se um processo gradual de perda de confiança, redução de espaço, afastamento e julgamento.
Dias ou meses depois, a conclusão vem pronta: “Ele não entendeu. Vamos demitir.”
Mas talvez ninguém tenha explicado. E perder um profissional por algo potencialmente corrigível, sem antes ter uma conversa objetiva sobre o problema, não é apenas uma oportunidade desperdiçada de desenvolvimento. Pode ser também uma decisão cara produzida por uma gestão que preferiu interpretar, comentar e julgar antes de conversar.
Feedback existe justamente para reduzir essa distância entre percepção e expectativa.
Não para constranger.Não para descarregar frustração.E muito menos para cumprir um ritual de avaliação de desempenho.
Feedback é um mecanismo de correção organizacional.
Ele torna explícito o que estava implícito: qual comportamento foi observado, que impacto ele produziu e o que precisa acontecer de forma diferente.
Sem isso, corre-se o risco de perder profissionais que poderiam ajustar rapidamente a rota se tivessem recebido informação suficiente para fazê-lo.
No meu ponto de vista, uma organização madura não deveria desligar alguém por um comportamento corrigível sem antes oferecer clareza e oportunidade de ajuste.
Mas existe também o outro lado. Depois que o feedback foi dado com clareza, a expectativa foi compreendida e houve oportunidade real de mudança, a responsabilidade deixa de estar apenas na liderança.
A empresa também não precisa sustentar indefinidamente quem compreendeu o que precisa mudar e decidiu continuar fazendo da mesma forma.
Talvez a pergunta, antes de concluir que alguém “deveria saber”, seja outra: Nós realmente dissemos?
Porque o que nunca foi dito não deveria ser tratado como se tivesse sido combinado.
E, depois que foi dito com clareza, a responsabilidade pela mudança também precisa mudar de lado.
No fim, uma boa liderança não elimina a responsabilidade individual. Ela cria as condições para que essa responsabilidade possa ser cobrada com legitimidade.
Clareza antes da consequência.
Oportunidade antes do julgamento.
Responsabilidade depois do feedback.
É assim que se evita perder talento por silêncio e também se evita confundir desenvolvimento com tolerância infinita.
Marcela Azevedo - Mentora. Líder de Gestão da Mudança e especialista em Transformação Organizacional, com foco em mudança comportamental, cultura e redesenho do trabalho.





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