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Conectando Conhecimento e Ideias, Cultivando Líderes

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As 3 etapas que separam adoção de IA de transformação real

Vamos ser honestos: a IA já faz parte do dia a dia dos funcionários, quer a empresa esteja preparada ou não.


Ela aparece no celular, na busca, na tradução, na edição de imagens, na preparação de uma apresentação, na análise de uma planilha, na revisão de um texto e na construção de respostas. Às vezes, dentro de uma ferramenta autorizada pela companhia. Em outras, no computador pessoal, em uma aplicação gratuita ou em algum uso informal que a organização sequer conhece. (nas minhas entrevistas eu ja conhei cada forma criativa de usar a IA de forma escondida 🤭)


Ou seja: o uso já começou, e a questão mais importante agora não é mais saber SE as pessoas usam IA. É entender como usam, para quê usam e se esse uso está conectado ao valor que a empresa pretende gerar.


Porque uma coisa é a IA estar presente no cotidiano. Outra, muito diferente, é ela fazer parte da estratégia da companhia.


Usar IA não significa fazer a transformação que a empresa precisa


O que vejo hoje em muitas empresas é uma expansão rápida da implementação de ferramentas de IA, acompanhada por treinamento, doses de comunicação, comunidades internas, redes de embaixadores e estímulos à experimentação. 


Tudo isso é necessário, mas existe uma diferença importante entre ensinar as pessoas a usar uma ferramenta e redesenhar a organização para capturar o valor dessa ferramenta.

Na prática, o que muitas vezes acontece é simples: a IA entra no dia a dia, mas o trabalho permanece quase igual.

Continuam existindo:

  • os mesmos processos;

  • as mesmas etapas de aprovação;

  • os mesmos papéis;

  • as mesmas interfaces entre áreas;

  • os mesmos indicadores;

  • as mesmas decisões concentradas nos mesmos lugares.


A pessoa produz mais rápido, mas o fluxo completo não necessariamente melhora.

Ela economiza tempo em uma tarefa, mas a organização não define o que fazer com a capacidade liberada. O relatório é criado em menos tempo, mas continua passando pelas mesmas reuniões, pelos mesmos níveis de validação e pelas mesmas estruturas de decisão.


Isso é ganho individual de produtividade.

Mas não é, necessariamente, a transformação organizacional que o C-level espera capturar quando coloca IA na agenda estratégica. 



Quando a IA entra na estratégia, o trabalho precisa ser redesenhado

Se a IA faz parte da estratégia, a empresa precisa ser capaz de responder a uma pergunta muito mais exigente:


Que organização precisamos construir para alcançar o resultado esperado com IA?


E essa resposta não vem apenas da área de tecnologia.

Ela exige conectar estratégia, Work Redesign, Organization Design, Change Management, Recursos Humanos, Liderança e Governança.


Em outras palavras: é preciso montar as peças do quebra-cabeça de forma coerente.

Não basta adicionar IA a uma rotina existente das pessoas, é necessário revisar o próprio desenho de como o trabalho é feito.


📍 Passo 1 — Definir o valor estratégico esperado

Existe uma conversa importante que precisa ser feita antes de definir a ferramenta. A empresa precisa esclarecer qual valor pretende capturar com IA. 

Quer reduzir custo? Aumentar capacidade? Melhorar qualidade? Ganhar velocidade? Revisar a experiência do cliente? Liberar tempo para atividades de maior valor agregado?

O ponto de partida não deveria ser: “Onde podemos colocar IA?”

Deveria ser: “Que resultado estratégico queremos produzir, e quais capacidades precisam mudar para isso acontecer?”


Sem essa clareza, a IA corre o risco de virar uma coleção de iniciativas interessantes (a IA é encantadora), mas desconectadas entre si e do valor que precisa entregar ao negócio. 


📍 Passo 2 — Redesenhar o sistema de trabalho

Depois de definir o valor esperado, começa a parte mais complexa: decompor e recompor o trabalho. Isso envolve analisar:


  • processos;

  • tarefas;

  • decisões;

  • fluxos;

  • papéis;

  • controles;

  • competências;

  • interfaces;

  • responsabilidades.


É preciso entender quais atividades podem ser automatizadas, quais serão ampliadas pela IA, quais devem permanecer humanas e quais deixarão de existir.

Mas essa discussão não pode ser apenas técnica.

A pergunta não é só: “O que a IA pode fazer?”

A pergunta de design é: “O que a IA deve fazer, o que continua humano e como os dois trabalharão juntos?”


É essa decisão que muda o fluxo do trabalho e, consequentemente, altera funções, responsabilidades, metas, controles e estruturas.


📍 Passo 3 — Institucionalizar o novo desenho

Para que a mudança se sustente, ela precisa chegar aos sistemas que organizam a vida da empresa — especialmente os sistemas de Gestão de Pessoas.

Se a IA assume parte da execução técnica, o que passa a diferenciar um profissional sênior?

Provavelmente, menos a capacidade de produzir sozinho e mais a capacidade de:


  • formular problemas;

  • validar resultados;

  • interpretar contexto;

  • administrar exceções;

  • tomar decisões;

  • assumir responsabilidade.


Se isso não aparece nos modelos de performance, carreira, desenvolvimento e reconhecimento, a organização passa a pedir um trabalho novo — mas continua recompensando o trabalho antigo.

E esse desalinhamento cobra um preço alto.


O que aprendi em uma implantação de IA


No primeiro projeto de implantação de inteligência artificial em que atuei, fizemos um trabalho consistente de Change Management.


Preparamos lideranças, estruturamos comunicação, criamos uma rede de embaixadores, estimulamos a experimentação e acompanhamos a adoção. De forma mais simples do que faríamos hoje, claro — até porque, naquele momento, o repertório, as ferramentas e a maturidade do mercado ainda eram muito menores.

O projeto funcionou.


As pessoas começaram a usar a ferramenta, ainda que de forma gradual, descobriram possibilidades e obtiveram ganhos reais de produtividade.

Mas o Work Redesign não aconteceu antes da implementação. Ele veio depois.

E foi justamente aí que começaram a surgir perguntas mais estruturais, principalmente vindas das lideranças seniores:


  • O que fazer com o tempo liberado?

  • Como a liderança deve se preparar para esse novo cenário?

  • Que entregas precisam mudar?

  • Como as funções devem evoluir?

  • Quais indicadores precisam ser revistos?

  • Onde a liderança deve reorganizar o trabalho da equipe?


E eu diria, com honestidade: naquele momento, eu ainda não tinha todas essas respostas.

Essa experiência me ensinou algo muito importante: a adoção pode acontecer antes do redesenho do trabalho. Nem sempre o cliente tem tempo para implementar no modelo ideal — muitas vezes trabalhamos dentro do tempo real.

Mas ela também me mostrou o limite dessa sequência.

É possível implementar IA sem realizar Work Redesign. O que não é possível é capturar todo o valor estratégico da IA sem fazê-lo.


A IA é uma peça, e sua organização é um grande sistema

Quando a IA faz parte da estratégia, ela precisa estar conectada a todas as outras peças:


  • estratégia;

  • processos;

  • decisões;

  • tarefas;

  • papéis;

  • lideranças;

  • competências;

  • estrutura;

  • incentivos;

  • governança.


Se essas peças não forem revisitadas, a empresa pode terminar com pessoas utilizando ferramentas novas dentro de modelos de trabalho antigos.


E esse talvez seja um dos maiores riscos das transformações atuais:

confundir presença de tecnologia com transformação organizacional.


A IA já entrou no cotidiano, mas agora a pergunta agora é se a organização foi redesenhada para transformar esse uso em resultado.



Marcela Azevedo Líder de Gestão da Mudança e especialista em Transformação Organizacional, com foco em mudança comportamental, cultura e redesenho do trabalho.

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