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Conectando Conhecimento e Ideias, Cultivando Líderes

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Projeto SAP é tudo igual. Sera?

Sempre me perguntam, em tom de constatação se projetos SAP são todos iguais.

Queria eu que esta frase fosse verdade, meu trabalho seria bem mais fácil, afinal seria apenas replicar o que sei em todos os projetos. Mas depois de atuar em diferentes implementações, eu discordo totalmente. 


O sistema SAP pode ser o mesmo, os módulos podem ser parecidos, os marcos do projeto muitas vezes se repetem: desenho, build, testes, cutover, go live, hypercare. Os desafios técnicos podem ter nomes conhecidos. As salas de reunião podem discutir temas semelhantes. Os cronogramas podem parecer familiares.

Mas projeto SAP nunca é igual. Porque SAP não expõe apenas processos. SAP expõe a organização.

Expõe como a empresa decide, como lidera, como lida com conflitos, como encara riscos, como trata seus fornecedores, como envolve as pessoas, como responde à verdade, como mede sucesso, como aprende, e, principalmente, como se comporta quando precisa abandonar formas antigas de trabalhar para construir novas capacidades.

O sistema pode ser o mesmo, mas a organização nunca é.


O que realmente muda de um projeto para outro


Em algumas empresas, o cliente orquestra a implementação. Ele entende que há múltiplos atores envolvidos, múltiplos interesses, múltiplas pressões e múltiplas dependências. Ele faz perguntas difíceis. Conecta decisões técnicas a impactos operacionais. Discute riscos antes que eles virem crise. Integra fornecedores, liderança, áreas de negócio, tecnologia e usuários-chave em torno de um resultado comum.


Em outras, o cliente apenas assiste ao projeto acontecer. Ele recebe status, cobra cronograma, olha o semáforo das atividades e pergunta se está verde. Mas nem sempre enxerga as tensões nos bastidores, os desalinhamentos entre fornecedores, as decisões adiadas, os processos mal compreendidos, as lideranças distantes e as pessoas que só serão chamadas quando o impacto já estiver na porta.


E aqui aparece uma das grandes diferenças entre projetos que parecem iguais: algumas organizações querem governar a mudança; outras querem apenas monitorar a implementação.


E não é a mesma coisa. Governar a mudança exige maturidade para lidar com a complexidade. Exige fazer perguntas que nem sempre terão respostas confortáveis. Exige criar espaços onde problemas possam aparecer cedo. Exige aceitar que status verde não é sinônimo de saúde, se o verde estiver sendo usado para evitar conversas difíceis.

O problema não é o indicador verde. O problema é quando o verde deixa de ser evidência e vira performance.

A diferença entre querer o verde e querer a verdade


Todo projeto complexo precisa de indicadores, eles ajudam a dar visibilidade, organizar decisões e acompanhar avanço. Mas existe uma linha perigosa entre usar indicadores para enxergar a realidade e usar indicadores para proteger narrativas.


Há empresas que querem saber a verdade, querem entender onde há risco, onde há dependência crítica, onde a liderança não está engajada, onde os key users não têm tempo real para atuar, onde o treinamento está atrasado, onde a operação ainda não entendeu o impacto, onde o processo desenhado não conversa com a realidade do chão de fábrica, do centro de distribuição, da área financeira, da força de vendas ou do atendimento ao cliente.


Essas empresas não tratam más notícias como ameaça. Tratam como insumo de gestão.

Outras empresas querem apenas ver o verde,e quando a organização só quer ver o verde, ela ensina o projeto a esconder o vermelho.


Não necessariamente por má-fé. Muitas vezes por sobrevivência. Fornecedores passam a suavizar riscos. Times internos evitam escalar problemas. Lideranças recebem versões filtradas. Usuários deixam de trazer dúvidas porque sentem que “o projeto já está decidido”. O silêncio cresce. A confiança diminui. A realidade continua avançando, mas fora dos fóruns oficiais.


Até que, em algum momento, o projeto descobre que o status estava verde, mas a organização não estava pronta.


Implementar sistema não é o mesmo que criar capacidade


Essa talvez seja uma das confusões mais relevantes em projetos SAP, e que se aplica a quase todos os projetos de implementação de tecnologia. 

Colocar o sistema no ar não significa, automaticamente, que a organização desenvolveu capacidade para operar de uma nova forma.

Go live é um evento técnico. 
Adoção é uma capacidade organizacional.

Uma empresa pode cumprir o cronograma, realizar treinamentos, comunicar a mudança e ainda assim não estar pronta para performar no novo modelo, porque a mudança não acontece quando a pessoa recebe uma apresentação, não acontece quando ela participa de uma sessão de treinamento e não acontece quando ela recebe um manual. Esses elementos são importantes, mas insuficientes.

A mudança acontece quando as pessoas conseguem executar o novo processo com clareza, confiança e consistência dentro das condições reais de trabalho.

E isso exige mais do que informação, exige entendimento além de marcos tecnicos. Exige prática. Exige suporte. Exige liderança próxima. Exige tempo para absorção. Exige revisão de rotinas. Exige abandonar atalhos antigos. Exige reaprender critérios de decisão. Exige compreender novas responsabilidades, novos controles, novas dependências e novas consequências. É bem complexo né.... (eu sei) rs


Para os executivos que compram o sistema, pode parecer apenas uma nova tela, uma nova transação, um novo fluxo, mas para quem operava o sistema anterior há 10, 15 ou 20 anos, pode ser a perda de uma inteligência prática construída ao longo de uma carreira.


Aquelas pessoas conheciam as “manhas” do sistema antigo. Sabiam onde buscar informação. Sabiam como corrigir exceções. Sabiam quem acionar. Sabiam quais atalhos funcionavam. Sabiam como contornar limitações. Tinham fluência, reputação e autonomia naquele ambiente.

Com o SAP, muitas dessas certezas desaparecem, e quando a organização não reconhece essa transição humana, ela tende a chamar de resistência aquilo que, muitas vezes, é perda de domínio, insegurança operacional ou ausência de condições adequadas de aprendizagem e execução.

Pessoas são informadas, obrigadas ou chamadas para construir?


Outra diferença decisiva entre projetos SAP está na forma como as pessoas entram na mudança.


Em alguns projetos, as pessoas são envolvidas desde cedo, são chamadas para contribuir com o desenho, validar impactos, antecipar riscos, testar cenários, traduzir processos e preparar suas áreas. Elas não são tratadas apenas como audiência do projeto, mas como parte da construção.


Em outros, as pessoas são apenas informadas, recebem comunicados, participam de reuniões. São avisadas de que o sistema vai mudar, de que o treinamento virá, de que haverá uma nova forma de trabalhar. Mas não têm espaço real para influenciar, questionar, ajustar ou cocriar.


E há ainda situações em que as pessoas são, na prática, obrigadas. Obrigadas a assumir papéis para os quais não foram preparadas. Obrigadas a representar áreas que não lhes deram legitimidade. Obrigadas a serem key users sem agenda, sem patrocínio, sem clareza de expectativa e, às vezes, com medo de recusar porque isso pode ser interpretado como baixa colaboração ou falta de comprometimento.

Esse ponto é crítico.

Key user não é um nome em uma planilha. Key user é infraestrutura social de adoção.

Quando bem escolhido, bem preparado e bem legitimado, o key user se torna uma ponte entre o projeto e a realidade operacional. Ele traduz o sistema para a linguagem da área. Traz o conhecimento do processo real para dentro do projeto. Ajuda a identificar impactos que não aparecem no desenho formal. Apoia pares. Antecipará resistências. Sustenta a mudança no cotidiano.

Mas, quando o key user é escolhido por conveniência, disponibilidade ou pressão, a organização perde uma das suas principais alavancas de adoção.

O papel pode até existir formalmente. Mas sua influência real fica comprometida.


Treinamento no fim não sustenta mudança no começo


Muitas implementações tratam treinamento como uma etapa próxima ao go live.

Quatro meses antes, três meses antes, às vezes menos. A lógica parece simples: primeiro desenhamos o sistema, depois ensinamos as pessoas a usá-lo. Mas, em mudanças complexas, essa lógica é limitada.


Porque treinamento não deveria ser apenas transferência de conteúdo, deveria ser parte de um processo mais amplo de construção de prontidão.


  1. As pessoas precisam entender por que a mudança está acontecendo. 

  2. O que muda no trabalho delas. 

  3. O que deixa de existir. 

  4. O que passa a ser esperado. 

  5. Quais decisões mudam de lugar. 

  6. Quais controles serão reforçados. 

  7. Quais indicadores serão afetados. 

  8. Quais interfaces serão mais críticas. 

  9. O que elas precisarão fazer diferente, não apenas clicar diferente.


Quando o treinamento chega tarde, as pessoas simplesmente não conseguem. Não porque as pessoas sejam incapazes. Mas porque a organização desta transição subestimou o tempo necessário para transformar informação em entendimento, entendimento em prática e prática em proficiência. 

Liderança não pode ser convidada só no final


Outro divisor de águas é a forma como a liderança participa.


Há projetos em que a liderança é corresponsabilizada desde o início. é envolvida na construção, entende impactos, ajuda a priorizar decisões, remove barreiras, protege agenda dos key users, dá contexto para suas equipes e assume publicamente que a mudança não é “do projeto SAP”, mas da organização.


E há projetos em que a liderança é acionada tarde demais. Quando a documentação precisa ser aprovada, quando o treinamento precisa ser comunicado, quando a resistência aparece, quando o go live se aproxima, quando o projeto precisa que alguém “engaje as pessoas”.


Mas liderança não engaja por entrevistas de GM, ou decreto faltando poucos dias para o go live.

A liderança precisa construir sentido ao longo da jornada. Precisa estar presente quando as decisões difíceis são tomadas. Precisa entender o que está sendo pedido das pessoas. Precisa sustentar prioridades quando a operação pressiona. Precisa proteger a mudança dos próprios hábitos organizacionais que tentam puxar tudo de volta ao modelo antigo.

Quando a liderança trata o SAP como responsabilidade do projeto, a organização recebe uma mensagem silenciosa: isso é uma implementação técnica.
Quando a liderança se coloca como corresponsável, a mensagem muda: essa é uma transformação da forma como trabalhamos.

O sistema é o mesmo. A postura é diferente.

No fim, todos os projetos SAP terão dificuldades, desconheço algum que não teve. 

Estamos falando de transições profundas em formas de trabalho. De pessoas que operavam de um jeito por anos e agora precisam atuar de outro. De processos que deixam de depender de conhecimento informal e passam a exigir maior padronização, rastreabilidade e disciplina. De áreas que precisam colaborar de forma mais integrada. De decisões que antes eram locais e passam a ter impacto sistêmico.

SAP mexe com processo. Mas também mexe com poder, autonomia, identidade, domínio técnico, reputação e rotina. 
Por isso, não existe projeto SAP “igual”.

O que existe são organizações tentando implementar um mesmo sistema a partir de maturidades muito diferentes.

Algumas tratam a mudança como instalação, outras tratam como desenvolvimento de capacidade.

Algumas querem status, outras querem verdade.

Algumas informam pessoas, outras envolvem pessoas.

Algumas convocam a liderança no fim, outras constroem corresponsabilidade desde o início.

Algumas terceirizam a transformação para fornecedores, outras orquestram o ecossistema.

Algumas chegam ao go live com o sistema pronto, outras chegam com a organização mais preparada para operar, aprender e ajustar.

Essa diferença não aparece apenas no cronograma. 


  • Aparece na qualidade da adoção. 

  • Na estabilidade pós go live. 

  • Na confiança das pessoas. 

  • Na redução de retrabalho. 

  • Na capacidade de resolver exceções. 

  • Na forma como a organização atravessa o hypercare. 

  • E, principalmente, na sustentação dos resultados depois que o projeto formal termina.


Talvez a pergunta seja outra...


Talvez a pergunta não seja se projetos SAP são todos iguais, a pergunta é o que cada projeto SAP revela sobre a empresa que o implementa.


  • Revela se a organização quer controle ou aprendizado. 

  • Se quer indicadores verdes ou conversas verdadeiras sobre mudanças estruturais. 

  • Se quer usuários treinados ou pessoas capazes. 

  • Se quer liderança informada ou liderança corresponsável. 

  • Se quer fornecedores executando escopos ou parceiros integrados em torno de um resultado comum. 

  • Se quer implementar um sistema ou transformar sua forma de operar.


O sistema pode ser o mesmo, mas a mudança nunca é. Porque toda implementação SAP é, antes de tudo, uma redefinição da forma como a organização decide, lidera, aprende, colabora e vai sustentar novos comportamentos.

Por isso, gestão da mudança não pode ser reduzida a comunicação e treinamento, em uma transformação SAP, Change Management é uma disciplina de governança e maturidade organizacional. É a frente que ajuda a provocar conversas difíceis, explicitar impactos, tensionar decisões adiadas, dar clareza a papéis e responsabilidades, preparar lideranças, fortalecer key users, antecipar resistências e construir as condições para que o novo modelo seja realmente adotado.

Porque, em uma transformação SAP, o go live marca a entrada do sistema em produção, mas uma boa gestão da mudança marca a diferença entre uma implementação entregue e uma transformação que vai conseguir ser sustentada.



Marcela Azevedo - Líder de Gestão de mudanças e especialista em transformação organizacional, com foco em mudança comportamental e cultura organizacional.

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