A sutil arte de fingir ser ignorante
- Marcela Azevedo
- há 2 minutos
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Existe uma habilidade pouco ensinada no mundo corporativo: a sutil arte de fingir ser ignorante.
Não no sentido de se diminuir.
Não no sentido de esconder competência.
Mas no sentido de entender que nem toda verdade precisa ser dita no momento em que é percebida.
Outro dia, conversando com uma mentorada, ela me contou que estava incomodada. Tinha acabado de entrar em uma empresa, com pouco mais de um mês de companhia, e já conseguia enxergar uma série de problemas cotidianos. Coisas simples. Processos confusos. Retrabalhos desnecessários. Decisões que poderiam ser tomadas com mais clareza. Problemas que, para ela, pareciam ter solução óbvia.
E ela estava fazendo o que muita gente competente faz quando chega em um novo lugar: tentando ajudar.
Levava ideias. Apontava melhorias. Sugeriria caminhos. Resolvia problemas.
Só que, em vez de gerar alívio, começou a gerar desconforto.
O time se retraía. Algumas pessoas ficavam defensivas. Outras ignoravam as sugestões. Algumas pareciam até incomodadas com a velocidade com que ela enxergava coisas que estavam ali há tempos.
E foi aí que eu disse algo que talvez soe estranho à primeira vista:
“Às vezes, você não precisa resolver nada. Às vezes, você precisa apenas ouvir.”
Porque o mundo corporativo é real. E, no mundo real, problemas não são apenas problemas. Muitas v#9DE586ezes, eles são hábitos. São zonas de conforto. São disputas silenciosas. São estruturas de poder. São sintomas de uma cultura. São coisas que existem há tanto tempo que algumas pessoas já aprenderam a viver dentro delas.
Tem gente que não quer resolver o problema.
Tem gente que depende do problema.
Tem gente que construiu identidade em torno do problema.
Tem gente que ganha importância porque aquele problema continua existindo.
E tem empresa que ainda não tem maturidade para resolver aquilo, mesmo quando a solução parece evidente.
Essa é uma das grandes frustrações de pessoas muito capazes: acreditar que uma boa ideia, por si só, deveria ser suficiente.
Mas, dentro das organizações:
uma boa ideia também precisa de timing.
Precisa de contexto.
Precisa de patrocínio.
Precisa de confiança.
Precisa, muitas vezes, esperar a empresa chegar no nível de consciência necessário para recebê-la.
Quando alguém entra em uma companhia e começa a resolver tudo rápido demais, pode parecer que está furando uma fila invisível.
A fila da legitimidade.
A fila da confiança.
A fila da escuta.
A fila da política interna.
Mesmo que a intenção seja boa, o impacto pode ser outro.
Às vezes, a pessoa recém-chegada acha que está sendo proativa. O time sente que está sendo julgado.
Ela acha que está contribuindo. O grupo sente que ela está expondo incompetências.
Ela acha que está trazendo solução. As pessoas sentem que ela está dizendo, mesmo sem dizer: “Como vocês nunca viram isso antes?”
E é aí que entra a arte de fingir ser ignorante.Fingir ignorância, nesse caso, não é deixar de saber. É escolher não performar todo o saber o tempo todo.
É perguntar antes de afirmar.
É observar antes de propor.
É entender quem sofre com o problema e quem se beneficia dele.
É perceber quais dores são reais e quais dores já viraram parte da mobília.
É reconhecer que, em algumas culturas, chegar com solução antes de construir vínculo pode ser interpretado como ameaça.
Maturidade corporativa também é saber dosar a própria luz.
Porque iluminar demais um ambiente que se acostumou à penumbra pode incomodar mais do que ajudar.
Existe uma diferença enorme entre ter razão e ser ouvido.
E talvez uma das competências mais sofisticadas da vida profissional seja aprender a esperar o momento em que a sua contribuição não será apenas correta, mas será possível.
Nem toda ideia boa precisa nascer como proposta. Às vezes, ela precisa nascer como pergunta.
“Como vocês costumam lidar com isso?”
“Esse problema já apareceu antes?”
“O que já foi tentado?”
“Quem mais é impactado por isso?”
“Em que momento faria sentido revisitar esse processo?”
Perguntas abrem portas que respostas muitas vezes fecham.
No fim, sobreviver no mundo corporativo não é sobre se calar para sempre. É sobre entender o ecossistema antes de tentar modificá-lo.
É saber que algumas soluções precisam de palco. Outras precisam de bastidor.
Algumas precisam de coragem. Outras, de paciência.
Algumas precisam ser ditas. Outras precisam amadurecer na escuta.
A sutil arte de fingir ser ignorante é, na verdade, uma forma refinada de inteligência.
É saber que você não precisa mostrar tudo o que sabe na primeira reunião.
Não precisa resolver todo problema que enxerga.
Não precisa provar valor atropelando o ritmo de um sistema que ainda está decidindo se confia em você.
Às vezes, a melhor estratégia não é chegar com a resposta. É ficar um pouco mais na pergunta.



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