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“Eu odeio mudança”: o que está por trás dessa frase dentro das empresas?

Antes de entrar no tema, quero trazer um dado importante: em 2022, um colaborador médio viveu 10 mudanças corporativas planejadas no ano — reorganizações, trocas de sistemas, ajustes de processo, novas formas de trabalhar.


Então, se alguma mudança na sua empresa não funcionou (ou não prosperou) este ano, você não está sozinho(a). Em muitos casos, não é falta de capacidade, é excesso de mudanças competindo ao mesmo tempo e gente tentando dar conta do trabalho “de verdade” no meio disso tudo.


Agora vem a parte que eu mais ouvi nos projetos.


Recentemente, usei IA para agrupar termos e frases que apareceram com frequência em entrevistas de diagnóstico em empresas onde atuei. Uma delas disparou (e apareceu em todos os níveis, do operacional ao estratégico):


“Eu odeio as mudanças aqui da empresa.”

Quase nunca essa frase significa “eu odeio evoluir”. Na prática, ela costuma significar uma (ou mais) destas coisas:


O que está por trás de “eu odeio mudança”


  1. “Eu estou no limite.”Mudança exige energia: aprender, adaptar, errar, corrigir. Quando a pessoa já está cheia, ela “fecha” para se proteger.

  2. “Eu não confio que isso vai durar.”Se a organização muda de direção com frequência, a pessoa aprende que engajar cedo demais é arriscado. Ela espera passar.

  3. “Eu não entendi o que muda no meu dia a dia.”Muita comunicação fala de propósito e visão, mas pouca gente recebe o essencial: o que eu faço diferente amanhã às 8h?

  4. “Eu tenho medo de errar (e pagar por isso).”Sistemas novos, rastreabilidade, auditoria, novas métricas… Se errar fica “registrado”, muita gente escolhe o caminho antigo porque parece mais seguro.

  5. “Isso está piorando meu trabalho no curto prazo.”Se o novo é mais lento sob pressão, tem mais etapas ou mais fricção, ele perde para o atalho sempre.

  6. “O que vocês pedem não combina com o que vocês recompensam.”Se a liderança decide com o relatório antigo, cobra pelo indicador antigo e celebra o “herói do improviso”, a mensagem real é: o velho jeito ainda vale aqui.


Percebe as diferenças? Quando alguém diz “eu odeio mudança”, muitas vezes está dizendo:


“Do jeito que vocês desenharam isso, mudar é arriscado demais (ou caro demais) para mim.”

Quando você coloca no contexto de um ano lotado de mudanças, essa frase ganha outra leitura: não é resistência, é cansaço, autoproteção e pragmatismo. “Eu odeio mudança” muitas vezes significa: “eu já estou no limite e essa mudança está tornando meu trabalho mais difícil ou mais arriscado.”


Por isso, a resposta não é insistir mais no discurso. É ajustar o ambiente: simplificar o jeito novo, reduzir o risco percebido e fazer a liderança parar de “patrocinar no PowerPoint” e começar a sustentar na prática.


O que líderes e o RH podem fazer (sem romantizar e sem culpar o time)


1) Trate como diagnóstico, não como debateEm vez de rebater, pergunte:

  • O que está ficando mais difícil no seu trabalho?

  • Qual é o medo real aqui?

  • O que faria isso ficar viável em uma semana?

  • O que precisa mudar ao redor (processo, metas, suporte) para funcionar?


2) Ajuste o ambiente (não só o discurso)Adoção acontece quando o “jeito novo” é:

  • claro (o que fazer, quando, como)

  • praticável (tempo, acesso, fluxo)

  • confiável (dados e regras consistentes)

  • seguro (para aprender sem virar punição)


3) Sustente com gestão, porque intenção não sustenta rotinaSe a mudança é real, a liderança precisa mover o “palco”, sem este movimento, não vai funcionar:

  • decisões e rituais usando o "novo"

  • métricas e reconhecimento alinhados ao "novo"

  • exceções bem definidas (e temporárias)


E aqui tem um ponto importante de prática: quando a gente cuida do lado humano com método, os resultados melhoram. Pesquisas da Prosci apontam uma correlação forte entre gestão de mudança eficaz e atingir objetivos do projeto.


Um teste simples para fechar o ano


Agora que você já entendeu alguns dos motivos por trás do “eu odeio mudança”, e que nem tudo é resistência, quero deixar um teste simples pra você fechar o ano.


Se você é liderança, RH ou gestor(a) de projetos, responda com honestidade:


  • Quantas mudanças essas pessoas (times/áreas) estão vivendo ao mesmo tempo: organizacionais, de estrutura, de processo, de sistema, de metas?

  • Como essa mudança está sendo inserida no dia a dia? Ela “cabe” na rotina ou virou uma camada extra por cima do trabalho?

  • Os benefícios estão claros para quem executa, ou só estão claros no PowerPoint?

  • Existe uma narrativa que conecta presente e futuro, e ela chega de verdade em todos os níveis, ou fica concentrada na liderança?

  • O risco de errar é alto para quem está na ponta vivendo a mudança? O ambiente permite aprender sem virar culpa?

  • A liderança usa e sustenta o novo ou pede o novo, mas decide e cobra pelo antigo?

  • A empresa tem rituais que reforçam o novo (reuniões, indicadores, reconhecimento, exemplos visíveis) ou tudo volta ao “normal” depois do kickoff?


Se alguma dessas respostas não for clara, talvez você não esteja olhando para um problema de “resistência”. Talvez você esteja olhando para desenho, coerência de liderança, capacidade instalada e gestão de mudança.


Esse é meu último artigo de 2025. Ao longo do ano, escrevi bastante sobre gestão da mudança e transformação: de sistemas, de cultura e, principalmente, de comportamentos. Porque no fim do dia, mudança não se sustenta no anúncio: ela se sustenta no que as pessoas fazem quando a rotina aperta. E é aí que a ciência comportamental me ajuda a ser mais prática: menos “boa intenção” e mais desenho de jornada, com menos atrito e mais clareza.


Espero ter contribuído para que esse conhecimento chegasse a você de um jeito aplicável: com menos desgaste, menos impacto negativo e mais conexão com resultados reais, para além do PowerPoint.


Se eu pudesse deixar uma frase para fechar o ano, seria esta:Mudança não acontece porque a gente explicou bem; acontece quando o ambiente torna o novo jeito o mais fácil, o mais seguro e o mais óbvio.


Um grande abraço e um ótimo final de ano. Que 2026 traga boas mudanças e que eu possa seguir apoiando, ajudando e executando muitas delas com vocês, nas empresas, nos projetos e também com meus mentorados.


Sou Marcela Azevedo, especialista em Recursos Humanos, líder em transformação organizacional, cultura e gestão da mudança.


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